Positividade … uma dádiva de Deus!
Findo um ano lectivo, um ano de trabalho intenso, surgem as tão almejadas férias.
Férias para repousar, fugir ao bulício das rotinas maquinais, dos compromissos, dos horários mas, também momento de paragem para reflectir devagar, a uma cadência pessoal a gosto. Nesta perspectiva de reflexão, de procura de um aperfeiçoamento tanto pedagógico como pessoal cada vez maior, preparo um saco de leituras a realizar.
Ao passar pela Bertrand (passo a Publicidade), o título de um pequeno livro Psicologia Positiva de José H. Barros de Oliveira (1) , saltou-me à vista, aguçou-me a curiosidade e de imediato o adquiri, passando também ele a ter lugar nesse saco de férias. E as leituras começaram justamente por aí.
Assim, aos pouquinhos, de esplanada, em piscina, de dia para dia o fui “saboreando”. O meu objectivo primeiro, com a leitura desta obra, era o de enriquecer a minha relação pedagógica de maior positividade.
No último ano lectivo tinha dado particular importância a uma postura, (enquanto pessoa e agente educativo) mais pacífica na resolução de conflitos, no quotidiano escolar. Sim, há Professores muito mal dispostos, crianças quase insuportáveis e auxiliares de educação sem compreensão.
Mas, a minha concepção de vida e de educação influenciam claramente a minha prática educativa. E, curiosamente, quanto mais experiência profissional e de vida eu tenho, mais poética me torno. Poética no sentido interior de maior sensibilidade, de valorização dos afectos e das relações, menos das zangas e punições.
Educar passa por uma relação de afecto e por isso partilho dos pensamentos sábios de Rubem Alves e Paulo Freire, encarando a educação e a docência numa perspectiva relacional, emocional, reflexiva e problematizadora.
“…os docentes, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor, intérpretes de sonhos.” Educar passa por uma relação basilar onde o educador assume a Rogeriana (2) atitude de partilha, assumindo um papel seguro e inspirador de confiança, um papel positivo.
Mas, vivemos num mundo à procura do prazer e, curiosamente, em simultâneo, um mundo carregado de negatividade, no que concerne a depressões, desânimos, ansiedade, solidão e de medos de novas ameaças terroristas, ecológicas e científicas. Os psicólogos concentraram-se durante muito tempo, na atenuação destes problemas ou seja, na reparação de fraquezas. Mas, sem duvida (e cada vez estou mais convencida disso) que o importante é ter uma vida com sentido e com recursos pessoais de resiliência (capacidade de resistir à adversidade e lutar contra tendências depressivas).
Há autores que definem a Psicologia Positiva como uma nova psicologia “menos fixada em remediar e mais em prevenir e promover novas forças psíquicas”
É certo que tal psicologia pode supor uma série vasta de traços que podem constituir a base de personalidades positivas mas, o livro em questão focou-se em algumas emoções/características, que para muitos podem ser “lamechices”, mas que considero realmente importantes: Amor, Felicidade, Alegria, Optimismo, Esperança, Perdão, Sabedoria, Beleza, Sentido para a vida. Poderia debruçar-me sobre a real importância de cada um destes aspectos e transcrever pensamentos indubitavelmente fundamentais, tanto para a vida pessoal como profissional de cada um de nós. Mas, o interessante desta leitura foi verificar a relação que o autor ia estabelecendo entre cada um destes construtos (3) com uma vida religiosa séria. Tal fez-me pensar …e anotar…
Quanto á Felicidade o autor refere: “Para quem tem fé, ser feliz é antes de mais confiar em Deus, é ter uma fé capaz de iluminar o sentido da vida e mesmo do sentimento e da morte”.”…Em geral as pessoas praticantes e com uma religiosidade interiorizada tendem a ser mais felizes.” E, quem é feliz, naturalmente é alegre! Lembra o autor que há a tendência de relacionar alegria com prazer mas, “enquanto a alegria é mais objectiva, mais profunda, mais espiritual, … o prazer é mais subjectivo … mais efémero e mais egoísta. ”A alegria pode relacionar-se com o riso e o sentido de humor que é correlacionado com diversos aspectos da personalidade, como a religião, atitudes face à morte, saúde psicológica, criatividade …”
Relativamente ao optimismo já Freud, apesar de o considerar uma ilusão, “admitia o seu contributo para o bem-estar, maior do que o provindo da Ciência”. Seligman (1992) também salienta que “a religiosidade é base de um maior optimismo e que há religiões mais optimistas do que outras.”
Se do optimismo partirmos para a esperança é notória a opinião de vários autores considerando-a um ingrediente necessário para se ser feliz. E, sem duvida que teólogos e filósofos cristãos ao estudarem este tema, a partir da Bíblia, a consideraram relacionada com a fé. (Paulo Freire apontou-a como uma das virtudes necessárias a uma prática educativa transformadora.)
E, quanto ao perdão, tema transversal a quase todas as religiões e espiritualidades? O autor do livro sublinha a sua importância “não apenas do ponto de vista teológico ou religioso, como também, humano e social.” Vários estudos realizados constataram que ”os cristãos consideram o perdão como um dos valores mais importantes, o que já não acontece com outras religiões como os judeus e os muçulmanos” e, ”entre os cristãos são os praticantes os mais dispostos a perdoar.” Mas, do ponto de vista humano, o perdão tem um nível terapêutico, devido aos poderes curativos sobre o sujeito.
Se todos estes valores são importantes a sabedoria é daqueles que é muito elogiado na Bíblia (basta ler Provérbios de Salomão). Segundo Stenberg “ a pessoa sábia tenta ir além das banalidades da vida e pensar nos mistérios que a envolvem…o sentido profundo da vida e da morte…a existência de Deus.” A sabedoria é considerada uma inteligência espiritual, um nível excepcional do funcionamento humano onde sobressaem avaliações equilibradas e acções ponderadas.
No que se refere à beleza os psicólogos têm-lhe dado pouca importância. E beleza é um conceito amplo e de múltiplas definições. Se nos centrarmos na procura da sua definição e do seu sentir em nós, da nossa percepção desse belo … encontrá-lo-emos. Navone (1991) está convicto de que “A pessoa com fé pode ter mais predisposição para vibrar com a beleza que a transporta mais facilmente a Deus.” Um autor ortodoxo russo, Evdokimov, escreveu muito acerca da beleza que tem o seu ápice em Deus e, que segundo ele a “verdadeira arte procura exprimir o Invisível e Indizível de Deus, suprema beleza”.
O Sentido para a vida é algo de natureza transcendental e que todos procuramos. Segundo o autor o sentido para a vida ”é uma meta de convergência do processo de crescimento espiritual do homem.” É de tal forma importante para a qualidade de vida psicológica que surge a logoterapia (psicoterapia centrada no sentido da vida), ensinando a dar significado mesmo aos aspectos trágicos da existência, pondo-os ao serviço do crescimento pessoal. Frankl (2001) refere que “ o objectivo da psicoterapia é a cura psíquica enquanto o fim da religião é a salvação da alma. ”Por isso, “auto-realização” e “auto-transcendência” estão de mãos dadas, sabendo porém que nem a logoterapia nem a religião evitam o sofrimento, mas, dão sentido ao sofrimento, à morte, evitando o desespero.
“Permanecem a Paz, a esperança e o amor…mas o maior destes é o amor” E, por considerar um dos sentimentos basilares na vida quotidiana e espiritual deixei-o para o fim, tendo-o já focado no inicio como característica fundamental da minha prática pedagógica. Pois, tal como Freire “ nunca fui capaz de conceber a educação sem amor e, é por isso, que julgo que sou um educador, por que acima de tudo sinto amor”. O amor faz milagres, mesmo do ponto de vista educativo e terapêutico.
“Psicologicamente podemos defini-lo como uma força de unificação (intimidade) e de crescimento. Não é uma coisa mas uma relação entre pessoas ou pessoas em relação íntima.” O amor autêntico é pai de todas as virtudes e a melhor definição bíblica de Deus é a de que Ele é Amor (I João 4:8-16) E, com o amor termino estas notas de leitura. O meu objectivo inicial transformou-se numa reflexão quanto ao valor da positividade de uma autêntica vida cristã. Ás vezes procuramos psicologias rebuscadas e esquecemo-nos que temos os valores mais positivos da psicologia, assim vivamos genuinamente uma espiritualidade cristã com fé. Ao reflectir em cada um destes tópicos como factores de maior sentido para a vida, a minha mente vê-se invadida pela admiração e o questionamento … Porquê tantos de nós cristãos, estamos subjugados por angústias desesperantes, pelas depressões que se eternizam e perdões que nunca são concedidos? Tantos que nas suas relações diárias não são motores de alegria mas fomentadores de conflito e pessoas infelizes! Como é possível? A grande força para a nossa vida está na FÉ e na busca incessante de Deus para a vivência de uma personalidade positiva. Concordo com muitos dos comentários do autor, baseados em estudos. A autenticidade cristã tem que espelhar positividade. E, essa positividade contagia todos os domínios da nossa vida e das nossas relações, até as profissionais. E, mesmo quando nos apaixonamos por autores e pedagogos que se aproximam da nossa filosofia de vida, como eu por Rubem Alves e Paulo Freire, descobrimos nas suas biografias os princípios cristãos como base estruturante dessas concepções.
Findas as férias … um novo tempo lectivo recomeçará. Guardarei estas reflexões como factores de desenvolvimento de uma vida cristã positiva, a alicerçar sempre na Fé, geradora de bem e de uma mulher feliz.
Porto, 01-09-2006
Raquel Alves
(publicado em O Semeador Baptista - Dez.2006)
[1] Doutorado em Psicologia pela Universidade de Paris; Professor Catedrático da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação do Porto, entre outros aspectos curriculares.
[2] Para Carl Rogers a relação de ajuda psicanalítica assenta numa relação de confiança, em que o terapeuta é um facilitador, num processo que leva a pessoa a descobrir-se.
[3] Domínios
Está a chover tanto!
Esta é uma história que se passou num famoso liceu (agora EB2,3) do distrito de Viseu:
